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Como fazer um programa de rádio

Rafael Garcia

Pela importância que o rádio assume no meio social, devemos levar em conta a sua linguagem e seus meandros. Ela é o grande trunfo para que o meio seduza e cative os seus ouvintes. O rádio fala e, para receber a mensagem, é apenas necessário ouvir. Indispensável, o rádio leva uma vantagem sobre os veículos impressos, pois para receber as informações não é preciso que o ouvinte seja alfabetizado. Em conseqüência disso, a média do nível cultural do público ouvinte é mais baixa do que a do público leitor, uma vez que entre o público do rádio pode estar incluída a faixa da população não alfabetizada, que no caso dos impressos é eliminada a priori. Com relação à televisão, o espectador também não precisa ler, apesar de, cada dia mais, os caracteres estarem sendo utilizados para prestar informações importantes, que escaparão ao não-alfabetizado.

Mas a informação, que praticamente nasceu no instante mesmo em que se realizava a primeira emissão radiofônica, precisou percorrer um longo caminho para poder encontrar sua manifestação mais ampla dentro do meio. Por uma série de razões seja de ordem jurídica ou político-econômica , a transmissão da informação pelo rádio sempre encontrou barreiras dos mais diversos tipos. Por muito tempo, a improvisação predominou na elaboração das emissões informativas, sendo quase sempre esquecidas as características do próprio rádio que, a rigor, se opõe às teorias que o definem como incapaz de levar adiante uma comunicação de maior profundidade do que a simples transmissão do fato, sem permitir que o "contexto" desse fato possa ser apreendido. Talvez a real incapacidade quase sempre estivesse no desconhecimento, na falta de domínio da potencialidade do fenômeno radiofônico.

A linguagem de rádio

Mesmo fazendo uso da voz, o processo de produção em rádio (da pauta à locução) compreende o uso de linguagem escrita e a construção de textos. Sobre isso Maria Elisa Porchat, no livro “Manual de Jornalismo da Jovem Pan”, lembra que “a comunicação no rádio é limitada, por contar apenas com o som. O que requer uma compensação na linguagem nele empregada; em contrapartida, o rádio leva a vantagem de estar em toda parte. Esse alcance impõe um compromisso cultural, num sentido amplo, e promove a valorização da nossa língua de modo particular.”

Esse compromisso cultural de valorização da língua é orientado no rádio pelas regras da linguagem coloquial, pois o radialista está falando para alguém. Uma vez que a fala supõe uma linguagem mais leve e informal, há de se esperar que o comunicador não carregue o seu vocabulário com palavras complicadas de difícil entendimento para a média do seu público. O texto usado no rádio é uma fala armazenada. Embora o radialista se prepare antes de apresentar o programa, ele deve demonstrar espontaneidade e improviso ao falar, imprimindo emoção à sua voz em face do que está sendo noticiado/relatado.

Daí a necessidade do script. Este orienta que entonação a voz deverá ter para passar a idéia de tensão e distensão. O script é um guia seguro que possibilita ao radialista saber o que irá dizer e como irá fazê-Io (nem todos os scripts indicam o como).

O mesmo procedimento se aplica à notícia e a outros gêneros que possuem tratamentos diferenciados a depender das exigências do assunto tratado. De modo geral, podemos dizer que a linguagem radiofônica deve ser:

  • direta
  • simples
  • clara

Estas características instituem uma regra geral para a linguagem de rádio:

  • dizer de modo direto (objetividade)
  • com a maior nitidez possível (clareza)
  • curto espaço de tempo (brevidade)

A linguagem, em qualquer programa, tem de ser "quente", acolhedora, entusiasmada. Nada formal. O rádio está sempre no presente e é imediatista. Envolve emocionalmente. Cria intimidade. Portanto, dirija-se ao seu ouvinte de forma direta, no singular. Em vez de explorar a emoção alienada, ofereça valores de vida que emocionam. Palavras fora de uso comum não são utilizadas no rádio. Cuidado com os termos religiosos.

Para maior entendimento sobre a linguagem radiofônica, nada melhor que conhecermos os gêneros deste meio, a sua dinâmica, a sua regra e suas leis específicas.

Gêneros de rádio

Antes de se falar em gêneros de programas radiofônicos, é importante deixar claro que qualquer tipo de programa deve, necessariamente, contar com um roteiro para ser apresentado. Infelizmente, isso não ocorre com a maioria dos programas de grande parte das emissoras do país. Primeiro, porque o locutor se considera apto a apresentar o programa sem a necessidade de um roteiro a seguir, e alguns chegam a argumentar que o roteiro Ihes tira a versatilidade e a descontração. Em segundo lugar, porque existe a idéia de que a criação de um roteiro é complexa e demanda muito tempo.

Cuidado com esses argumentos, pois eles motivam o trabalho desordenado e contribuem, fortemente, para falhas e ruídos na comunicação radiofônica. Na verdade, o verdadeiro locutor deve saber trabalhar com o roteiro, primeiro porque é uma garantia contra possíveis falhas que, normalmente, acontecem quando menos se espera; depois, porque é a forma profissional de se atuar, pois permite que o programa seja permanentemente controlado e possa ser modificado pelo coordenador, sem que isso cause "buracos" na programação. Já quanto ao segundo argumento, apesar de ser verdadeiro, não serve como justificativa. Quando decidimos participar da produção de um programa de rádio temos de ter em mente que o fundamental é apresentar um excelente programa aos ouvintes, independentemente do tempo que vai nos tomar e da dificuldade que teremos para concluí-lo.

Um roteiro bem elaborado garante a entrada e a saída do programa no horário; e cumprir o horário, além de demonstrar respeito pelo ouvinte, permite também mudanças de última hora no material a ser divulgado, sem prejudicar o ritmo do programa, pois sempre pode acontecer de um entrevistado “furar”. Devemos levar em conta, também, que o roteiro permite o registro do programa por muito tempo, uma vez que podem ser arquivados e transformarem-se em verdadeiros documentos.

São várias as categorizações dos gêneros no rádio. Alguns autores, a exemplo de André Barbosa Filho, preferem esquematizá-las em sete. São elas: Gênero jornalístico; Gênero educativo-cultural; Gênero de entretenimento; Gênero publicitário; Gênero propagandístico; Gênero de serviço; Gênero especial.

Entretanto, para fins práticos de produção de programas, é mais eficiente caracterizarmos os gêneros radiofônicos de acordo com os seus objetivos, apresentando a seguinte conformação: Gênero musical; Gênero de variedades; Gênero popular; Gênero informativo; Gênero esportivo; Gênero humorístico.

Vale lembrarmos que esta classificação não é uma regra; serve apenas de referência quando da idealização e concretização da produção dos programas radiofônicos, até porque para alguns pesquisadores as programações radiofônicas baseiam-se, atualmente, no tripé formado por informação, entretenimento e esportes. Falemos agora de cada um deles:

Musical

Podemos considerar um programa como sendo "musical" quando, claramente, a maior parte do espaço foi ocupada por músicas, mesmo que haja locução, informação ou entretenimento.

Os programas musicais são também os mais fáceis de ser produzidos, uma vez que as músicas utilizadas já estão prontas e acabam dominando a programação. O trabalho do produtor e do locutor resume-se em anunciar as músicas e trazer uma ou outra informação.

Variedades

Durante muito tempo este gênero foi conhecido como Rádio-Revista e tem como característica a mistura em um único programa dos vários gêneros existentes, baseando-se principalmente no tripé música-informação-entretenimento. Durante as décadas de 1940 e 1950 eram apresentadas, neste tipo de programa, as famosas radionovelas (que serviram de base para as telenovelas de hoje).

Também é comum que o Programa de variedades privilegie o setor de prestação de serviços. A versatilidade de assuntos possibilita que este tipo de programa ocupe espaços extensos dentro da programação; muitas vezes ultrapassam três horas de duração. Normalmente, deve ser desenvolvido por uma equipe de produção, dividida em núcleos, de acordo com os assuntos/quadros do programa. O papel do locutor é o de garantir a descontração da transmissão, sem que sua participação tenha interferência direta no material que está sendo difundido. Isto significa que neste gênero de programa o foco central é a mistura de assuntos, e não a presença de um determinado apresentador.

Popular

O gênero popular também é um dos mais difundidos, visto que é responsável pela maior parte da audiência nas emissoras. Este programa está centrado na figura do apresentador, também chamado de comunicador popular. Ele deve ter um perfil bastante específico: uma pessoa descontraída, com muito carisma, perspicácia e emotividade.

Infelizmente, por conta das necessidades comerciais de boa parte das emissoras, tal gênero de programa acabou sendo um pouco desvirtuado, tendo como principal característica a exploração da boa-fé do público ouvinte, normalmente constituído por pessoas do sexo feminino, de classe baixa e pouca escolaridade.

A difícil situação econômica, aliada à total falta de apoio por parte do governo, principalmente nas áreas de saúde, educação e habitação, fazem com que esse perfil de público tenha no Programa popular a principal e, às vezes, a única forma de canalizar suas esperanças.

Em termos de produção, sua programação divide-se entre música, muita prestação de serviço de caráter básico, gincanas e notícias sobre artistas e personalidades, tudo com a participação direta e permanente do apresentador. Assemelha-se, em grande medida, com o gênero de variedades.

Informativo

Responsável principal pela credibilidade de uma emissora, o gênero informativo tem como base os programas que se encarregam de difundir notícias, informação e prestação de serviços. Normalmente, são apresentados em formato de radiojornal ou de boletins. No primeiro caso, é necessária uma equipe de jornalismo para produção de todo o material a ser apresentado.

O ponto mais importante de um radiojornal são as entrevistas. Por conta disso, é bom que este programa seja apresentado ao vivo, e que as entrevistas também sejam realizadas ao vivo. A credibilidade de um bom radiojornal depende basicamente da boa escolha das notícias que serão apresentadas ao público e da fidelidade e qualidade com que são difundidas. No caso dos boletins, muito utilizados nas emissoras FM, normalmente são apresentados de hora em hora, trazendo as principais notícias do período. Neste caso, apenas um jornalista pode dar conta da produção de todo o material informativo.

Outro formato bastante eficiente do programa informativo são as mesas-redondas ou debates. A diferença entre uma e outra é que as mesas-redondas são formadas por diversas pessoas, sem que necessariamente os participantes tenham pontos de vista antagônicos. Já no caso dos debates, é fundamental que os participantes (normalmente dois) defendam idéias completamente opostas.

Esportivo

Aceito somente nos últimos anos como gênero, os programas esportivos vêm cativando público cada vez maior. Antigamente, eram classificados como gênero informativo. A mudança ocorreu basicamente porque o trabalho desenvolvido por locutores e repórteres, principalmente no que diz respeito às coberturas futebolísticas, fugiu completamente do conceito de difusão de informação, instituindo-se como um show com rituais e performances específicos. Na verdade, nos últimos anos os locutores esportivos têm-se aperfeiçoado no sentido de criar novos estilos de locução, utilizando-se sempre da criatividade e cativando uma legião cada vez maior de ouvintes.

Avalia-se, inclusive, que o gênero esportivo é o que mais se desenvolveu nas últimas décadas, com uma rica produção de vinhetas e efeitos especiais durante suas transmissões, aliadas a constantes entrevistas e coberturas ao vivo.

Em termos de programação, o gênero esportivo oferece três tipos de formatos:

  • cobertura de eventos esportivos;
  • noticiários esportivos (que ocorrem em datas e horários predeterminados);
  • programas esportivos apresentados antes e depois dos eventos.

Para desenvolver um trabalho eficiente na área de esportes, é necessário que a emissora mantenha uma equipe esportiva, que pode ser dividida por tipo de esporte, sendo fundamental a cobertura permanente dos esportes mais difundidos na região da emissora.

Humorístico

Muito difundido nas décadas de 1940 e 1950, o gênero humorístico praticamente desapareceu do rádio brasileiro na década de 1960. Naquela época, tal tipo de programa era caracterizado por uma seqüência permanente de piadas e brincadeiras, tendo a família como público-alvo. A mudança de muitos humoristas para a televisão e a transformação de perfil do público de rádio a partir da década de 1980, fez com que esses programas fossem rareando.

Atualmente, percebe-se uma re-introdução de programas humorísticos no rádio, de forma completamente diferente do que era antes: agora os programas são veiculados em rádios FM's, voltados prioritariamente para o público jovem e, ao contrário de entreter, buscam sempre o escracho, o humor apelativo.

Radiojornalismo: o gênero informativo

De todos os gêneros radiofônicos, o informativo ocupa posição de destaque. As características do rádio como meio de comunicação de massa fazem com que ele seja especialmente adequado para a transmissão da informação, que pode ser considerada como sua função principal: ele tem condições de transmitir a informação com maior rapidez do que qualquer outro meio.

O rádio foi o primeiro dos meios de comunicação de massa que deu ineditismo à notícia, graças à possibilidade de divulgar os fatos no exato momento em que eles ocorrem. Permitiu que o homem se sentisse participante de um mundo muito mais amplo do que aquele que estava ao alcance de seus órgãos sensoriais: mediante uma "ampliação" da capacidade de ouvir, tornou-se possível saber que o que "fazem neste mundo", pode chegar aos seus ouvidos assim que ocorrer. Segundo Walter Sampaio, o rádio intrinsecamente coloca o ouvinte dentro daquela "história que passa", no momento exato em que está passando e, extrinsecamente, abre-lhe a alternativa de acompanhá-la.

Essa atividade do rádio é denominada de radiojornalismo: verdade transmitida com responsabilidade social. O radiojornalismo vive da informação a ser investigada, noticiada, a ser comentada e repercutida.

A informação no rádio

Nos últimos tempos, tem sido atribuída à palavra informação uma série de conotações principalmente com relação aos meios eletrônicos , adjetivando-a para que represente, também, outros tipos de mensagens que não as eminentemente jornalísticas. Assim, muitas vezes ouvimos a "informação musical", "informação comercial" etc. Discussões à parte, vamos aqui considerar apenas um tipo de informação: a jornalística.

O objetivo da informação como mensagem radiofônica é manter o ouvinte a par de tudo o que de interesse e atualidade ocorre no mundo. Sob este ponto de vista, podemos considerar que pertencem à informação todos os programas regulares de notícias, os ocasionais originados pela aparição de uma notícia de excepcional relevo e aqueles outros que têm como finalidade levar ao público um conjunto de conteúdos que estão presentes 'na atualidade sem serem totalmente atuais. Desse modo, a informação radiofônica aparece como um todo dentro da sucessão de mensagens radiofônicas diárias, não como algo isolado dentro da programação, com horário mais ou menos fixo e duração determinada.

Informação e notícia: conceitos

Muitas divergências existem em torno dos conceitos de informação e de notícia, às vezes empregados como sinônimos, outras com especificações próprias. Genericamente, podemos considerar que informar "é dar a conhecer um conjunto de mensagens de atualidade (notícias), através dos distintos meios de comunicação".

Existem várias definições para notícia. Uma das mais usuais é a que diz: notícia é tudo aquilo que é novidade, interessante e de relevância social. Desde o nascimento do jornal, no início do século XVII, existe o problema da necessidade de escolher, dentre um grande número de acontecimentos, aqueles que merecem ser divulgados. Com o rádio, essa realidade não é muito diferente.

Os critérios para a construção de notícias seguem parâmetros éticos e morais que orientam o radialista, o repórter, o pauteiro como proceder no processo de produção de matérias. Entre eles, podemos destacar:

Objetividade: é um princípio básico que orienta a atividade do radialista. Significa relatar de maneira correta essas verdades em seu próprio contexto, mesmo quando entram em conflito com nossos valores pessoais. Agir de forma objetiva nem sempre resulta fácil, pois o profissional de rádio se depara cotidianamente com questões que ó envolvem subjetivamente. Mesmo assim, constitui um imperativo ético que o profissional seja imparcial, o máximo que puder.

Os valores das notícias: "Entre todos os eventos e histórias que ocorrem num dia, como o radialista decide o que será incluído no boletim noticiário?" (2001: 31), questiona Mcleish. Os valores das notícias são medidos pelo interesse do ouvinte, por aquilo que lhe envolve direta ou indiretamente. Alguns pontos devem ser levados em conta pelo que é:

  • importante - acontecimentos e decisões que afetam o mundo, a nação, a comunidade e, portanto, a mim/você;
  • controverso - eleição, guerra, processo no tribunal, em que o resultado ainda não é conhecido;
  • dramático - as dimensões da tragédia, acidente, ter remoto, tempestade, assalto;
  • geograficamente próximo - quanto mais perto do ouvinte, a notícia terá maior probabilidade de afetá-lo;
  • culturalmente pertinente - você pode se sentir ligado/a a um incidente mesmo que seja distante, se tiver algo em comum com ele;
  • imediato - acontecimentos, e não tendências;
  • inusitado - o incomum ou coincidente à medida que afeta as pessoas.

Considerada o espelho da sociedade, a notícia radiofônica deve se preocupar em, pelo menos, possibilitar ao público informações importantes levando em conta o incomum, o relevante, ou seja, o factual. Isso no entanto não deve motivar a exploração da miséria humana; o incomum da notícia deve ter como horizonte a relevância e pertinência do fato para os seus ouvintes.

A construção de notícias no rádio depende de uma série, de procedimentos que absorve grande parte das funções exercidas no meio, mobilizando técnicas e formas de fazer particulares.

A mensagem informativa

Existe apenas uma informação para ser difundida tanto pelos veículos impressos como pelos eletrônicos. No rádio, a informação vai apresentar características próprias, sem contudo perder sua identificação com o conteúdo a ser informado. A diferenciação deve ser entendida unicamente em função do meio específico e da técnica mais adequada a ele, e não como se existisse uma parcela específica de informação para cada meio. O que pode ocorrer é a aparição eventual de acontecimentos que melhor se adaptam para serem transmitidos por um ou por outro meio.

A notícia no rádio tem estrutura semelhante a outras mensagens radiofônicas: embora a informação tenha conteúdo e natureza diferentes das demais, está sujeita à linguagem do meio, devendo adequar-se às suas características. E algumas das características do rádio permitem que seja especialmente apto para a transmissão da informação, destacando-se, entre elas, o imediatismo e a mobilidade (v. as características nas pp. 21 e 22). E para atingir essas características, o rádio precisa produzir informações que chamem a atenção do ouvinte. Passaremos, agora, a uma etapa importante do nosso laboratório: depois de conhecer a história do rádio, saber da sua evolução e trajetória, conhecer a sua linguagem e gêneros, é hora de começar a produzir no/para o rádio.

Produzindo notícias, divulgando informação

Neste momento, estaremos conhecendo as etapas, de produção de notícias, entrevistas e outras possibilidades. Conforme assinalado anteriormente, a arte de fazer rádio implica leis e regras específicas que compreendem linguagens, técnicas e procedimentos que o profissional do rádio deverá levar em conta e dominar de forma adequada. No entanto, antes de procedermos à etapa de produção de notícias faz-se necessária a explicação de alguns termos que aqui serão utilizados. São expressões comuns ao universo da construção noticiosa, em particular ao universo do rádio, em geral.

  • BG (background): música, vozes ou ruído em fundo que servem de suporte para a fala. O mesmo que BG (begê). O BG precisa ser característico, para não ser confundido com falha técnica, e não pode, de maneira alguma, prejudicar o som da fala.
  • retranca: o assunto a que a lauda (notícia) se refere.
  • rubrica: são as recomendações ao locutor para uma entonação especial, pronúncia de uma palavra estrangeira ou difícil.
  • lauda: folha padronizada em que é redigido o texto do programa, com as marcações para a técnica.
  • script: roteiro para gravação ou veiculação de um radiojornal.
  • deixa: palavras finais da matéria que indicam ao locutor e ao operador de som o momento em que outro trecho da informação deve ir ao ar. Designa também o ponto da edição.
  • vinheta: chamada de curta duração, usada para destacar o intervalo e o reinício.

A produção da notícia implica atividades e ações que vão do percurso assim descrito: pauta - texto - locução

Pauta

É um roteiro com perguntas básicas, por meio do qual o repórter orientará sua entrevista. Faz parte da pauta um resumo dos acontecimentos, a respeito do entrevistado e do que o ouvinte espera da matéria (enfoque). A pauta é ponto de partida; ela deve surgir sempre através da observação, das entrelinhas.

Importante: por ser ágil e rápido na transmissão da informação, é o rádio que deve gerar novos assuntos entre os meios de comunicação. Fazer uma pauta em cima de uma notícia de jornal ou do que a televisão já mostrou contraria a proposta de um radiojornalismo vivo e dinâmico. A quantidade de informações que chega à redação é tão grande que exige análise, seleção e organização de todo o material. Daí a necessidade de fazer uma pauta, para dividir e orientar o trabalho da reportagem, inclusive o da chefia, que passa a saber quem está fazendo o quê.

Não esqueça: a pauta serve para aumentar as possibilidades de reportagens, e não para limitá-las. Pauta é ponto de partida. Nela não existe ponto final.

Modelo de pauta

Tema
O Decreto n. 24.675, de 30 de junho de 2001.

Sinopse
O Decreto n. 24.675, de 30/6/2001, estabelece, entre outras coisas, uma medida que oferece aos alunos e professores de estabelecimentos de ensino oficial, oficializado e reconhecido, um desconto de 50% nas tarifas de ônibus. No entanto, a burocracia e a limitação dos dias, horários e locais de venda do passe escolar causam várias dificuldades para os usuários.

Encaminhamento
O objetivo desta matéria é, portanto, mostrar as condições de venda do passe escolar em Rudge Ramos, enfocando os problemas que os estudantes têm encontrado para comprá-lo e as modificações que possam vir a ser implantadas.

Para isso será necessário saber quais são os critérios adotados para a venda de passes, as dificuldades que eles criam para os alunos do bairro e se algumas medidas estão sendo tomadas para melhorar esse processo.

Fontes
As pessoas a serem contatadas são as seguintes:

  • Cléa - responsável pelo setor de passe escolar da Secretaria da Educação, em horário comercial, no Paço Municipal de São Bernardo;
  • Osias Vaz - diretor da Viação Riacho Grande, em horário comercial, na Rua Álvaro Alvim, 866, Vila Paulicéia, São Bernardo;
  • Ilberto Pereira - gerente da empresa Príncipe de Gales - das 8 às 12h e das 14 às 18h, na Rua Lauro Miller, 833, Vila Palmares, Santo André;
  • alguns estudantes do bairro.

Sugestão de perguntas

  • O que é o Decreto?
  • Quais as providências que estão sendo tomadas para superar as dificuldades nos postos de venda de passe?

Uma vez redigida a pauta, o radialista passará para outra etapa do processo de produção da notícia: a reportagem.

Reportagem

Pelas próprias características do rádio - agilidade, instantaneidade -, a reportagem tornou-se a base do radiojornalismo. Portanto, a função do repórter é muito importante dentro deste esquema. Faz parte de sua função coletar, elaborar e transmitir informações. Para o desenvolvimento de uma boa reportagem é fundamental a isenção, isto é, manter-se distante emocionalmente do acontecimento e sempre ouvir os dois lados da questão. O respeito ao ouvinte também é muito importante. Assim, evite perguntas óbvias ou pouco interessantes. Sempre faça uma pequena introdução para situar o ouvinte na matéria.

A redação de notícias radiofônicas pode ser feita de inúmeras maneiras, a partir das particularidades do assunto. Assim temos:

Notícia escrita

O texto é redigido a partir da própria notícia (lauda).

Formato de notícia escrita (nota)

João (redator) 10.10.2002 (data) inauguração ambulatório (retranca) 45" (tempo)

. Prefeitura inaugura primeiro ambulatório especializado no tratamento de doenças infantis.
. A solenidade ocorreu no início desta manhã e reuniu mais de duzentas pessoas, além da presença do prefeito César Magalhães e de todo o secretariado.
. O ambulatório terá o nome de Miguel da Silva Rossi, em homenagem ao garoto de 7 anos que faleceu no mês passado, enquanto esperava atendimento médico.
. De acordo com o diretor geral da nova unidade de saúde, o clínico Waldemar de Souza, esse novo espaço será fundamental para diminuir a mortalidade infantil na cidade.
. A maioria da população apoiou a iniciativa, mas a comunidade reclamou da demora de mais de três anos para a conclusão das obras do ambulatório.

Notícia com citação de voz

Relato da notícia com a inclusão de trechos da fala do entrevistado, o que dá maior credibilidade à notícia.

Formato de notícia com citação

João (redator) 10.10.2002 (data) – inauguração ambulatório (retranca) 1'10" (tempo)

. Prefeitura inaugura primeiro ambulatório especializado no tratamento de doenças infantis.
. A solenidade ocorreu no início desta manhã e reuniu mais de duzentas pessoas. além da presença do prefeito César Magalhães e de todo o secretariado.
. O ambulatório terá o nome de Miguel da Silva Rossi, em homenagem ao garoto de 7 anos que faleceu no mês passado, enquanto esperava atendimento médico.
. De acordo com o diretor geral da nova unidade de saúde, o clínico Waldemar de Souza, esse novo espaço será fundamental para diminuir a mortalidade infantil na cidade.

TÉCNICA - depoimento gravado
MD 05 faixa 10 tempo: 25"
Deixa inicial: estamos muito felizes...
Deixa final: ...crianças da comunidade

. A maioria da população apoiou a iniciativa, mas a comunidade reclamou da demora de mais de três anos para a conclusão das obras do ambulatório.

Notícia com entrevista

É a introdução da notícia (cabeça da matéria) com a inclusão de uma entrevista (reportagem sobre o assunto).

GRAVADA

João (redator) 10.10.2002 (data) – inauguração ambulatório (retranca) 2'10" (tempo)

. Prefeitura inaugura primeiro ambulatório especializado no tratamento de doenças infantis.
. Outras informações com o repórter Valter dos Reis.

TÉCNICA - entrevista gravada
MD 05 - faixa 10 - tempo: 2'
Deixa inicial: a população de ...
Deixa final: ...para o Jornal da Cidade

AO VIVO
João (redator) 10.10.2002 (data) – inauguração ambulatório (retranca) 4'10" (tempo)

. Prefeitura inaugura primeiro ambulatório especializado no tratamento de doenças infantis.
. O repórter Valter dos Reis está no local e nos traz mais informações.
. Bom dia, Valter.

TÉCNICA - entrevista ao vivo
Tempo previsto: 4'
Deixa final: ...para o Jornal da Cidade

Redação do texto radiofônico

A regra geral da linguagem radiofônica deve ser rigorosamente seguida à risca, ou seja, utilizar-se de linguagem direta, períodos curtos e simples, baixo nível de adjetivações, objetividade e revisão.

A notícia deve responder às perguntas (lead):
O QUÊ? - O assunto
QUEM? - Personagens envolvidos
ONDE? - Local onde acontece o fato
QUANDO? - Data, hora
COMO? - Modo como aconteceu o fato
POR QUÊ? - Causas

Dicas de redação

O objetivo da mensagem radiofônica é envolver, é chamar a atenção, é fazer com que o ouvinte participe emocionalmente da mensagem. O rádio é basicamente emoção e o único recurso com o qual ele conta é o som. A fala, a palavra, é a base informativa que, se bem utilizada, é capaz de cativar o receptor. Por isso, tome nota de algumas dicas de redação do ponto de vista gramatical, lingüístico, estilístico e pontuação.

Estrutura gramatical e lingüística

  • Deve ser linear, observando um desenvolvimento lógico da idéia.
  • Formar frases sempre em ordem direta, isto é, sujeito - verbo - complemento. Evitar colocar material adicional entre o sujeito e o verbo (ligar a ação do verbo ao sujeito); isso fará com que o ouvinte se esforce menos para compreender a mensagem.
  • Usar frases curtas e sintéticas. Ir direto ao assunto é um dos princípios básicos do discurso comunicativo.
  • Evitar monotonia intercalando frases simples com outras um pouco mais longas.
  • Evitar palavras difíceis e compridas, buscando sinônimos. Para a boa sonoridade do vocabulário, deve-se evitar a aproximação de palavras proparoxítonas, que dificultam a leitura do locutor e impedem a clareza.
  • Evitar adjetivos, uma vez que carregam pouca informação. Eles devem ser usados somente quando ajudarem a precisar uma idéia.
  • No texto jornalístico, procurar usar o verbo sempre no presente do indicativo. Isso denota instantaneidade e atualidade, características do rádio.
  • Preferir o singular ao plural, quando não alterar o significado.
  • Não usar os pronomes possessivos dispensáveis e evitar os pronomes demonstrativos.
  • Só usar figuras de linguagem que estejam incorporadas ao uso comum.
  • A linguagem oral no rádio deve utilizar vocabulário simples.
  • Evitar termos técnicos e científicos, assim como palavras estrangeiras, pois elas dificultam a inteligibilidade, criando no ouvinte uma sensação de inferioridade cultural.
  • Evitar rimas, sibilância e repetição de sons parecidos ou iguais.
  • Considerar o caráter de atualidade das palavras. Evitar cacófatos ou a repetição de palavras.
  • Evitar expressões que se contradizem e expressões redundantes.
  • Usar parênteses em rádio somente em duas situações: ao escrever a pronúncia de uma palavra estrangeira, ou para sinalizar uma frase interrogativa ou exclamativa.
  • Não iniciar frase com números. Não usar citações, principalmente entre aspas.

Pontuação

No rádio a pontuação serve para associar a idéia expressada à sua unidade sonora, isto é, ela marca unidades fônicas e não gramaticais, como acontece no texto impresso. Para isso, precisamos basicamente de ponto e vírgula.

A vírgula serve para marcar uma pequena pausa; respira-se e introduz-se uma pequena variação na entonação oral. Ela precisa, porém, ser usada na forma gramaticalmente correta, isto é, deve-se respeitar a regra gramatical observando a necessidade de uma respiração correta por parte do locutor. O resultado final exige uma leitura natural com um tom coloquial.

O ponto indica o final de uma unidade fônica completa, mais longa que a vírgula. O ponto parcial indica a resolução da entonação que marca o término de uma frase. O ponto final marca o término de um parágrafo.

Usando corretamente estes dois sinais, a leitura será fluente, sem distorções na entonação. Portanto, para redigir bem o texto que será exposto oralmente observe o seguinte:

  • coloque-se no lugar do ouvinte. Ele não é leitor;
  • pense bem: organize as idéias e esteja seguro;
  • seja natural, conciso, simples e correto;
  • leia sempre o texto em voz alta para identificar a boa sonoridade e o ritmo.

A edição de matérias

A edição no rádio significa montar uma matéria após selecionar, estabelecer uma hierarquia e emendar trechos da gravação, tornando a matéria limpa. Algumas recomendações são fundamentais:

  • verifique a qualidade do som da entrevista o rádio é som;
  • avalie o que é essencial para que a matéria seja entendida;
  • selecione os melhores trechos da entrevista;
  • não edite (corte) demais a matéria, pois ela perderá a sua naturalidade;
  • corte o supérfluo, erros, vazios; faça uma síntese da matéria;
  • cuidado com o ponto de edição (o ponto de corte), para não deixar o depoimento do entrevistado sem conclusão (boca aberta);
  • cuidado ao emendar trechos para não modificar o sentido (a idéia) que o entrevistado quis dizer (neste caso, está em jogo a questão ética da emissora e do profissional).

A entrevista – reportagem

A reportagem é a base do radiojornalismo, e o repórter é o elo de ligação entre os ouvintes de uma emissora e os entrevistados. O que é de interesse do meu ouvinte a respeito do entrevistado?

O repórter tem de ter isto em mente ao realizar uma entrevista. A entrevista é, basicamente, uma conversa com perguntas e respostas. As perguntas podem ser, essencialmente, de três tipos:

Esclarecimento Ação Análise

Termo costumeiro no mundo jornalístico, a entrevista tornou-se um gênero fundamental na apuração e divulgação de informações. O entrevistado é quem dá as instruções e orientações sobre o assunto abordado. Cabe ao entrevistador conduzir as perguntas de modo que o ouvinte possa ficar a par do tema. A entrevista se caracteriza, essencialmente, por ser uma modalidade espontânea de obter informações, o que justifica a proibição de perguntas previamente forneci das pelo veículo de comunicação ao entrevistado. O que pode acontecer, nesse caso, é uma discussão antecipada sobre o assunto da entrevista.

Em termos gerais, existem três tipos de entrevista:

  • Entrevista informativa: fornece informações ao ouvinte sem complexidade de estrutura.
  • Entrevista interpretativa: o entrevistador fornece os fatos e o entrevistado comenta ou explica sobre o exposto. Para este tipo de entrevista, o entrevistado tem de estar bem informado e atento ao que está sendo dito e dele exigido.
  • Entrevista emocional: consiste em repassar ao ouvinte o estado emocional do entrevistado. Geralmente é utilizada em casos graves e difíceis, como acidentes e outros infortúnios.

Orientações para a realização de uma boa entrevista

Embora o entrevistador seja um mediador, um condutor na entrevista, ele deverá ter claro o seu objetivo. O que quer perguntar? Aonde quer chegar? Quais os principais pontos a serem abordados? E, claro, conhecimento sobre o assunto: saber do que realmente se trata, conhecer o entrevistado (nome correto, o que faz etc.). A falta de cuidados básicos compromete a credibilidade do entrevistador, o que provoca instabilidade e falta de interesse no assunto por parte do ouvinte. Levando em conta estes critérios, o entrevistador deverá fazer perguntas orientado pelo lead, expresso nas sete expressões já estabelecidas anteriormente.

O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê?

Novamente, aqui, os aspectos técnicos deverão ser constantemente monitorados. O entrevistador deverá se preocupar com os ruídos, o direcionamento da entrevista, o timing (tempo) das entrevistas no espaço da emissora etc.

Modelo de roteiro de radiojornalismo

VINHETA DE ABERTURA (GRAVADO)

ABERTURA DO JORNAL PELOS LOCUTORES

++++++++GIRO DE MANCHETES++++++++
VINHETA DE VIRADA (EFEITO DE PASSAGEM)

PRIMEIRO BLOCO DO JORNAL

VINHETA DE PASSAGEM (JANELA COMERCIAL)

SEGUNDO BLOCO DO JORNAL

VINHETA DE PASSAGEM (JANELA COMERCIAL)

TERCEIRO BLOCO DO JORNAL

ENCERRAMENTO DO JORNAL PELOS LOCUTORES

++++++++FICHA TÉCNICA++++++++
VINHETA DE ENCERRAMENTO (GRAVADO)



Este texto foi extraído da apostila Webrádio: Técnicas de produção, montagem e edição, de Rafael Garcia, e adaptado para este CD.